ABIHRN

Baixo investimento público trava expansão ainda maior do turismo no RN, aponta ABIH

O crescimento do turismo no Rio Grande do Norte poderia ser significativamente maior se o Estado investisse mais na promoção e na estrutura do setor. A avaliação é do presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do RN (ABIH-RN), Edmar Gadelha, que atribui o ritmo do turismo potiguar abaixo do potencial principalmente ao baixo volume de recursos públicos destinados à divulgação do destino e à ampliação da conectividade aérea.

Segundo Edmar, o orçamento estadual destinado ao turismo em 2025 ficou muito aquém do necessário para competir com outros estados nordestinos. “Nós tivemos um orçamento para o turismo do Governo do Estado no ano passado de R$ 8 milhões. Com incremento de R$ 3 milhões de uma emenda de bancada”, afirmou, em entrevista à TV AGORA RN nesta quinta-feira 22. Para efeito de comparação, ele citou Alagoas, que hoje lidera o ranking de destinos no Nordeste. “Quando você olha para Alagoas, por exemplo, eles têm um nível de investimento de R$ 100 milhões. Ou seja, é mais de 10 vezes o nosso nível de investimento”, pontuou.

Para o dirigente, investir em turismo não significa apenas campanhas publicitárias tradicionais. O foco, segundo ele, deve estar na articulação direta com companhias aéreas e grandes operadoras. “Quando você fala em investimento em turismo, você fala especialmente em promoção e divulgação do destino. Não é só através dos meios publicitários, mas especialmente sentando com os principais players do mercado”, explicou.

Apesar dessas limitações estruturais, Edmar Gadelha reconhece que o turismo potiguar vive um momento de crescimento, impulsionado principalmente pelo aumento da receita gerada por visitante. Dados do IBGE mostram que o Rio Grande do Norte apresentou, em 2025, aumento de faturamento e nível de atividade turística acima da média nacional. Para o presidente da ABIH-RN, esse resultado reflete uma mudança no perfil do turista – que está gastando mais no Estado. “Nós tivemos um aumento acima da média de forma tímida em relação ao volume de turismo, mas considerável em relação ao volume de receita proveniente do turismo”, disse.

Esse avanço, segundo ele, está diretamente ligado ao fortalecimento do turismo internacional, sobretudo com a retomada do mercado argentino. “Nós entendemos que há um movimento crescente a nível nacional, especialmente em relação ao mercado emissor argentino”, afirmou. De acordo com Edmar, o cenário econômico mais favorável na Argentina tem trazido ao RN visitantes com maior poder aquisitivo, o que impacta diretamente na arrecadação. “São turistas mais qualificados em termos de poder aquisitivo e, via consequência, isso reflete diretamente na receita bruta proveniente do turismo”.

O crescimento do fluxo estrangeiro ganhou novo impulso com a implantação de um voo diário da companhia JetSmart ligando Buenos Aires a Natal, a partir do fim de dezembro. “É um incremento de impacto positivo de aproximadamente 1.800 turistas por semana chegando da Argentina diretamente a Natal”, ressaltou. Ele observou que esse público tem forte preferência por destinos como Pipa, em Tibau do Sul. “Se você anda pelas ruas de Pipa, é difícil você falar português, porque a maioria realmente fala espanhol”, relatou.

Além do aumento no número de estrangeiros, o dirigente chama atenção para uma característica que beneficia diretamente a hotelaria: a maior permanência dos turistas. Essa permanência mais longa ajuda a reduzir a ociosidade durante a semana, problema histórico de destinos litorâneos.

Mesmo com os avanços recentes, Edmar aponta a baixa conectividade aérea como um dos principais gargalos do turismo potiguar. “Nós temos ainda muitas limitações na malha aeroviária”, afirmou.

Segundo ele, essa restrição ajuda a explicar o preço elevado das passagens para Natal. “A lei da oferta da procura empurra o preço da passagem para cima”, resumiu. Atualmente, cerca de 80% do fluxo turístico nacional chega ao Estado por via aérea, o que torna o tema ainda mais estratégico.

Hotelaria comemora alta ocupação

No setor hoteleiro, os números mais recentes confirmam a retomada. A ocupação no Réveillon superou as expectativas iniciais. “Nós abrimos esse ano uma expectativa do Réveillon para 89% e atingimos aproximadamente 94%”, afirmou. Janeiro também apresentou desempenho acima do registrado no ano anterior. “Nós abrimos o mês com expectativa de 78% e hoje estamos com 84%”, disse, acrescentando que isso representa “um aumento de mais de 12% em relação ao mesmo período do ano passado”.

As projeções para o Carnaval de 2026 seguem a mesma tendência. “A média ocupacional da hotelaria está em 83% já para o Carnaval”, informou Edmar, lembrando que o índice supera o observado em 2025. Para ele, esse crescimento não é episódico, mas parte de um processo de recuperação dos níveis pré-pandemia. “Nós temos um trabalho que vem recuperando a média ocupacional que nós tínhamos no período pré-pandemia”, afirmou.

Outro fator destacado por Edmar Gadelha é o fortalecimento do turismo de eventos, especialmente em Natal. Ele citou o aumento do público em grandes eventos recentes como Réveillon, Carnatal e São João. “Na questão do Réveillon, em 2025 nós tivemos mais de 70 mil participantes ali na engorda de Ponta Negra. Esse ano já subiu para 100 mil”, relatou. No Carnatal, o crescimento também foi expressivo. “Em 2024 nós tivemos 100 mil foliões e em 2025 já subiu para 130 mil”, disse.

Apesar dos bons resultados, o dirigente alerta para a necessidade de planejamento. “É preciso que a gente faça uma divulgação com a maior antecedência possível desses eventos”, destacou. Segundo ele, o turista que depende de conectividade aérea costuma planejar viagens com até 90 dias de antecedência, o que exige organização prévia para converter interesse em vendas efetivas.

Edmar também falou sobre a requalificação da hotelaria e a diversificação das experiências oferecidas ao visitante. “O turista hodierno busca experiências únicas”, afirmou, citando exemplos como turismo do sono, esportivo e corporativo. Para ele, essa mudança de perfil exige investimentos constantes em modernização e qualidade dos empreendimentos.

Ao final da entrevista, o presidente da ABIH-RN reforçou que, apesar dos avanços recentes, o turismo do Rio Grande do Norte ainda enfrenta entraves estruturais antigos. “O turismo no nosso Estado é um dos principais pilares da economia. Então, tem que ser tratado como política de Estado”, defendeu. Na avaliação dele, somente com mais investimento público, ampliação da conectividade aérea e articulação permanente entre governo e iniciativa privada o RN conseguirá destravar todo o seu potencial turístico.

Matéria do Agora RN

https://bit.ly/4jTQOL3